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Várzea

UM ABRAÇO NA NOITE AZUL OU, O DIA DO SÃO CAETANO LAVAR A ALMA

por Marcelo Mendez


(Foto: Reprodução)

Na entrada para as arquibancadas do Estádio Anacleto Campanella, onde o São Caetano faria a final do Campeonato Paulista da série A2, eu encontrei Guinho no caminho:

– Ei, você é aquele cara que escreve sobre várzea, né?

– Sim, sou eu. Tudo bem?

– Tudo, cara. Eu leio la suas crônicas, vi que você foi la no Inamar. Eu li, gostei demais!

– Como é seu nome?

– Guinho…

– Guinho, muito obrigado!

– Por nada, mas ó; Escreve sobre a gente também. Sou torcedor do São Caetano desde 1990, hoje a gente vai sair daqui campeão!

– Boa sorte, Guinho.

– Valeu!

Meio que nos despedimos ou algo parecido porque depois de nossa breve conversa não vi mais o Guinho. Como tal as estrelas da noite de São Caetano, ele sumiu, ou foi para algum lugar de onde não mais o vi.

No céu fechado, nublado da cidade, eu fui acompanhar a torcida do São Caetano no jogo que poderia trazer o Azulão de volta para o seu lugar, para o lugar dos grandes, dos que são felizes. O São Caetano tinha a chance de voltar a ser campeão depois de muito tempo. Um tempo ótimo…


Copa Libertadores de 2002

Campeão paulista em 2004, finalista do Campeonato Brasileiro em anos seguidos, finalista da Libertadores da América em 2002, o São Caetano era um dos times de ponta do futebol brasileiro. Mas veio então a derrocada.

Erros na sua administração, times mal planejados e outros tantos problemas e la foi o Azulão ladeira abaixo em todas as séries que disputava. E nessa hora o que fica?

A paixão.

Fica o que tem de mais puro no coração do Guinho, do Frisco, do Barata, meus amigos torcedores do Azulão. Fica por conta da resignação de uma gente que me recebeu de braços abertos entre eles, desde quando cheguei para compartilharmos à chuva, até o minuto final da partida, em um 2×1 em cima do Bragantino que lhes devolveu o melhor dos sorrisos em seus rostos.

Em meio a uma chuva fria, cortante, castigando nossas costas, esses garotos e garotas cantaram como se fosse a ultima das noites que lhes seria concedido o direito de cantar.

De rostos molhados pela garoa forte, castigado pelo vento que muda a temperatura na cidade, de mãos juntas, colados às suas crenças pagãs e ao que se tem como fé, os garotos da Torcida Comando Azul, torciam fervorosamente.

Enquanto o placar seguia em 1×1, os rapazes de São Caetano assistiam a tudo de olhos vidrados. Sonhavam amiúde, de maneira curta, clamavam por um átimo de encanto. Por uma entidade que tomasse conta de suas almas e os levassem para muito além da razão, da quimera rasa dos sentidos. Era o clamor pela catarse que o gol gera. E ela veio…


(Foto: Reprodução)

Eram jogados 20 minutos do segundo tempo, quando Regis empurrou a bola pra o fundo das redes do Bragantino. Os meninos de São Caetano, choraram, riram, gritaram, oraram… Por conta de uma bola que balança a rede, por uma fração de alguns segundos, todas as experiências contidas no exercício de viver são ali compartilhadas por eles. Era a hora da festa!

Não haveria mais sustos, não teria mais nada que atrapalhasse o riso. O São Caetano voltava a ser campeão em campo, empurrado pelo grito de amor e fé do seu torcedor. E por falar nele, o torcedor, na saída do estádio, reencontrei Guinho.

Ele não falou nada, não me perguntou nada. Apenas me abraçou como a quem abraça um velho amigo e sem a menor necessidade, me agradeceu:

– Cara, muito obrigado por você ter vindo. Deu sorte!

Imagina. Eu que sou eternamente grato ao Guinho e a todos os torcedores do São Caetano.

Vocês me emocionam profundamente…


ZEMBA, O IMPERADOR DO MORRO DO SABÃO

por Marcelo Mendez


Marcelo Mendez (Foto: Fabiano Ibidi)

Em um domingo de sol em Mauá, a cidade se fez presente em riso e festa por conta do Futebol de Várzea.

Haveria, então, na cidade duas finais de campeonato da bola marrom no mesmo dia. As pessoas, todas felizes, lotaram o estádio da Vila Mercedes para a primeira delas, entre Dínamo Mauá x Combatentes.

E no primeiro toque que deu na bola, um menino vestindo uma camisa 10 como seu Alforje fez daquela manhã de dezembro em Mauá, algo épico.

Era a vez de Zemba, o 10 do time do Combatentes, encher os olhos deste cronista que vos escreve…

Entre todo o sol, vento, prefeito presente, vereadores e instrumentos de samba, olhei para o tempo e naquele campo de plástico meus olhos queriam ver apenas ele.


(Foto: Sergio Moraes)

Jogador refinado, alto, esguio, de passos de Nijinski, de uma fleuma ao andar pelo campo que me remeteu a poesias e odes, um menino que troca seu dia a dia comum por um protagonismo justo, que a vida decerto insiste sistematicamente em lhe negar.

No futebol de várzea, Zemba e seu futebol Imperial são mais do que apenas comuns. Zemba é a o Cavaleiro da Guarda do sonho, o homem que mantém viva a poesia em seu estado puro.

Desfilava…

Era altivo, de seus pés não saíam apenas passes; Pela cancha, Zemba distribuía sonetos.

Deu vários aos atacantes de seu time, correu pela cancha como se a vida fosse realmente algo belo, tranqüilo, como se todo sofrimento dessa dura e deliciosa aventura de viver pudesse ser resolvido apenas com um par de chuteiras e uma bola marrom, adornada de terra.

Com Zemba tudo era fácil e muito bonito.

Antevia tudo, as jogadas, a marcação adversária, os sonhos, os amores. Armava sua equipe com a destreza com que Franz Liszt manuseava seu piano para criar sua obra “Poemas Sinfônicos”. Porque tudo que Zemba fazia por aquele campo era poesia pura.

Lançamentos, chutes, chapéu, passes, trivelas…


(Foto: Custodio Coimbra)

Me emocionava a cada vez que a bola chegava a seus pés. Da beira do campo de onde eu assistia a tudo isso, consegui ver um sorriso pleno de amante realizada nela, a bola.

A pelota procurava pelo camisa 10 do Combatentes pelo campo, tal e qual um apaixonado procura por uma rosa improvável pela noite boêmia para presentear a sua amada. A síntese de tudo que acontecia era esta:

Todos ali estavam totalmente apaixonados por Zemba.

Um craque da renascença. Um Leonardo Da Vinci sem pincel, um Michelangelo sem capela Sistina, nada disso; Zemba era um grande apenas com a camisa 10. E vos digo caros leitores:

Não há no mundo dos homens, obra de arte maior do que a camisa 10 de um time de futebol envergada por um craque.

Zemba é desses na várzea…

O PÉ DE MUSSUM E A FENDA DO TEMPO NA VÁRZEA

por Marcelo Mendez


(Foto: Custodio Coimbra)

Há um hiato de tempo:

No exato minuto entre a bola que vem do fundo e o pé do atacante que balança a rede, há um intervalo, uma pausa, uma fenda no tempo que cientista nenhum conseguiu estudar, sequer imaginar.

Esse é o tempo de sonho, de onde vem o verso, é o que precede o poema, a blue note do improviso jazzístico e a parábola mágica desenhada por uma anca santa que remexe ao som de uma gafieira imortal.

É a Várzea, meus caros!

Isso é á Várzea.

O futebol da bola marrom que reúne três mil pessoas numa manhã de domingo para colar a cara num alambrado em Mauá, para ver os encantos da montanha magica que rodeia o campo do Juá. Ali se deu um jogo de futebol de várzea, uma decisão.

O Scorpions do Jardim Zaíra de Mauá enfrentaria o Vila Junqueira de Santo André.

De um lado do campo, as pessoas de azul e branco do Scorpions, mais numerosos, animados, festivos, comandados pela animação de Madeira, seu patrono, e pela sua irmã, a torcedora Zezé, a comandar as festas de um lado do Juá.

Do outro lado, o Rubro Verde de Santo André, não menos festivo por estar em menor número, muito pelo contrário. A torcida do Junqueira é forte, participativa, fiel e empurra seu time desde o primeiro minuto até sempre! A festa pronta:

Times perfilados, imaginem só, teve hino nacional, fotos, televisão, jornal, sites, todos os olhos da região voltados para aquele campo de terra que poderia bem não ser nada, mas ocupado por aqueles 22 homens de chuteiras coloridas, era nada menos do que santo.


(Foto: Custodio Coimbra)

A partida seguiu igual, disputada gota a gota de suor, todo mundo a lutar por réquiens de sonhos a miúde, querendo e precisando de gols para realizar tal intento. Eis então que o Vila Junqueira ataca, eram jogados 32 minutos do segundo tempo.

O lépido atacante Bahia escapa pela esquerda e cruza como pode para a área. É aí que o tempo para:

Muitas coisas podem acontecer nesse hiato de tempo; Sonhos são sonhados, mãos são apertadas, amores são feitos, abraços são compartilhados. A fenda do tempo que a várzea abre no instante que precede o gol é o momento maior da arte, o rotundo átimo de tempo onde o épico se perpetua.

Eis que a viagem da bola termina quando ela encontra o pé de Mussum. O atacante do Vila Junqueira a empurra para as redes e pronto. Eis a grandiosidade da Arte, da Humanidade, caros leitores:

Gol do título na várzea!

O placar final apontou 2×0. O Vila Junqueira sagrou-se campeão. O pé de Mussum fez a história no Juá e a várzea seguirá.

Grandiosa, Várzea!

ELSON E SEU GOL DE BICICLETA NA VÁRZEA

texto: Marcelo Mendez | fotos: Fabiano Ibidi


Marcelo Mendez

Era uma manhã chuvosa na várzea…

Uma manhã de chuviscos e ventos, aquela hora do dia que Chico escolheu para cantar que “Eu faço samba e amor até mais tarde e tenho muito sono de manhã”. Aquele dia em que o barulhinho dos pingos da chuva respinga em sua janela, criando assim uma sonata pra te acordar e depois vai embora.

Por capricho aparece, por magia se vai. E o dia começa. No piso que outrora foi árido, seco e duro, por esses dias, molhados pela chuva dengosa, tornam-se fofos, um tanto escorregadios e em algumas partes, pesado. Por alguns cantos da cancha, poças são espelhos a refletir narcisos que o habitam munidos por chuteiras coloridas que dentro em breve, marrom serão.

O torcedor na arquibancada improvisada, esta atento. Olhos e guarda chuva apostos para qualquer eventualidade e a bola adentra para ficar lindamente suja.

Era esse o cenário do no campo do DER em São Bernardo onde o time da casa enfrentava o Nacional da Vila Vivaldi. As coisas seguiam dentro de uma normalidade corriqueira até em determinado momento, uma bola foi chutada para o alto. Eram jogados alguns minutos não se sabe quantos…

O tempo na várzea é o que define o espaço necessário para que se crie o verso.

São muitas as coisas que acontecem enquanto a bola viaja pelo céu que cobre o futebol que se joga pelos terrões dos arrabaldes do Brasil. Sonhos, visões, aspirações, um gole de cerveja, da tempo de muita coisa enquanto a bola marrom faz seu vôo. Na viagem que aquela bola fez pelo céu do DER, tudo isso aconteceu e o seu pouso não podia ter uma sorte melhor…

Acomodada por um peito que, muito mais que um conforto, lhe fez um afago, a bola marrom encontrou Elson e sua camisa 11 do DER. Acarinhada como a amante que surge na tarde vazia que antes era só solidão, a pelota se sente em paz, feliz, realizada. Ela então se ajeita para ajudar o atacante que tão bem lhe quer. O zagueiro do Nacional olha, tenta fazer algo, afinal está ali para ser o vilão da cena. Mas meio que hipnotizado pelo que a arte reservava para o episódio, pouco faz e então, com a leveza de um bailarino, Elson joga as pernas para o alto e mete uma bicicleta, mandando a bola pra o fundo das redes do Nacional. Que golaço!

O estádio em festa, os copos de cerveja pra o alto, os instrumentos de samba em fúria, a torcida em êxtase, o cronista feliz; Tínhamos então um gol de bicicleta! Depois disso, tivemos um segundo tempo bom, bem jogado, disputado, o Nacional fez boa figura, tentou uma sorte melhor, mas não se falava de outra coisa na manhã de chuviscos em São Bernardo:

Teve um gol de Bicicleta!

Caros amigos leitores, eu entendo… Respeito os que preferem as pinturas de Goya, a força neo-realista do cinema de Michelangelo Antonioni em seu ótimo filme “A Noite”. Mas os afirmo sem medo de errar, que, perto de um gol de bicicleta na várzea todas essas coisas nada mais são do que pastiche! Nada… Nem Antonioni é maior que o gol de bicicleta marcado por Elson na várzea. Elson nosso herói, portanto!

SOBRE PAIS, MENINOS E VÁRZEA

por Marcelo Mendez


Domingo de manhã é dia de futebol de várzea.

Dessa vez eu faria a final da primeira divisão da várzea de São Bernardo entre Divineia e Jardim do Ipê no Estádio Primeiro de Maio. Aí vem a história, aí reside toda a magia da coisa. Todas as vezes da minha vida que eu tiver que voltar nesse Estádio a emoção se apropriará de mim. Na hora me vem à mente o ano de 1980, meus 10 anos e meu velho pai:

– Filho, você vai comigo lá na Vila Euclides.

– E o que é Vila Euclides, pai?

– É um lugar aonde o pai vai lá dizer umas coisas que você precisa ouvir…

– Ué, mas por que não fala aqui?

– Porque lá, meu filho, muita gente tem o que dizer, muita gente tem o que ouvir.
Você já sabe que eu estou em greve, já te expliquei. Agora você vai comigo ver o que é uma greve…

– Ah, legal, pai!

– Tá… Mas não fala pra sua mãe!

– Tá bom, pai.

E então saímos naquele dia frio, juntos, com um segredo de amigos, sem minha mãe, dona Claudete, saber de nada, para ir lá ver o que era a tal da greve que meu pai tanto fazia e que tanto problema causava pra gente. Ah, mas adorei!

Era um tal de helicóptero voando, cavalo pra lá e pra cá, caminhão cheio de guarda e todo mundo querendo falar com meu pai. Eita, que meu velho era o cara ali no meio daquele povo todo. Tinha também um barbudo de voz rouca, que chamava meu pai de
“cumpanheiro”, que dizia que eu tava crescendo e que mandava me darem refrigerantes.
Eu só sentia falta de uma coisa, que falei de primeira pro meu pai:

– Pai, não é um campo de futebol? Por que não tem jogo?

– Hoje não dá, filho. Mas um dia, terá…

Teve. Em 2014, 34 anos depois, teve o jogo que eu tanto queria…

Em campo tivemos dois times representando duas comunidades simples, humildes, carentes da cidade de São Bernardo. Os bairros do Divineia e do Jardim do Ipê tomaram conta das arquibancadas do Primeiro de Maio, agora sem aquela tensão, sem mais ter que se preocupar se um daqueles helicópteros vai dar tiros, tocar bombas, sem medo dos cavalos passarem por cima da gente, nada disso assustava mais. No domingo de manhã, os olhos daquela gente simples olhavam para o campo de jogo para apenas torcer por sonhos, gols, tabelas, canetas e outras artes ludopédicas. Não dá para dizer que a vida está uma maravilha, melhorou um tanto.

Dá para ter um pouco de alegria, vez por outra tomar um drink diferente, em dias de festas queimar uma carne e, principalmente, hoje é possível ir pra rua reclamar das coisas que ainda faltam sem ninguém ir preso como o meu pai (de vez quando ainda vai, mas a
gente mete a boca e soltam depois…). Foi naquela manhã fria de 1980. Foi complicado mais uma vez meu velho fora de casa, mas ele sempre me dizia quando voltava, que tudo aquilo ia valer a pena um dia. Pois é…

No 2×0 que o Divineia meteu em cima do Jardim do Ipê, tenho certeza que está a afirmação do meu pai. Creio que ele ficaria feliz da vida de ver e de saber que agora Vila Euclides chama Primeiro de Maio, muito em homenagem a ele e outros tantos que não
estão mais aqui. Feliz…

No Dia dos Pais em 2014, meu velho não tá mais aqui. Cansou disso tudo em 1997, foi novo, meu pai merecia mais. Muito mais do que farei agora, mas bom, velho… É de coração.

Para meu pai, seu Mauro, dedico esta crônica. Para a poesia, dedico à lágrima que me escorre a barba agora. Para a várzea, meu agradecimento sempre.

Obrigado, querida…