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Várzea

DE PARIS TEXAS ATÉ O JARDIM DETROIT E ALGUNS ENCANTOS DE VÁRZEA…

por Marcelo Mendez


Amanda Perobeli

E tal e qual Harry Dean Stanton procurando por Nastassja Kinski pelo desertão do Texas, lá fui eu, cronista improvável, caboclo poético, entidade lúdica contumaz e renitente em busca de lirismo pelos campos da Várzea do ACDB. Dá para dizer que a paixão é a mesma. Claro…

Stanton no seminal filme “Paris Texas”, do ótimo Wim Wenders, lutava para encontrar sua loira venusiana com aqueles lábios imortais pelo calor dos Estados Unidos, em botecos de strip-tease dantescos. Pode parecer muito mais louvável do que eu em busca de um bom jogo de bola, mas garanto a vocês que não é de jeito algum algo menor.

Há em um campo de terra batida da várzea a grandiosidade de batalhas épicas. E assim fui:

Estrela D x Corinthians de São Bernardo no campo do Jardim Detroit.

Fui acompanhado da boa paz de Seu Renato, o motorista que por lá nos levou, e por aquela que nem me fez ter inveja do Stanton. Afinal de contas, se ele procurava pela Nastassja Kinski sem encontrá-la de forma pelo Texas, eu de cara já encontrei minha amiga Amanda Perobelli para dar um pouco de charme para essa onda toda.

Amandinha é muito mais que fotógrafa, ela é Bob Gruen assoviando Mutantes, é Richard Kern de tênis Puma colorido ao som de Suffragette City pela Marechal Deodoro. Amandinha de coturno, parada com a mão no bolso de trás da calça jeans, olhando para o quadro de aviso da redação, é a versão mais Rock And Roll do que pode vir a ser a tal da “paz do seu sorriso”. Chegamos juntos no Campo de terra batida e ela que me diz:

– Marcelo, olha essa poeira. Não parece o Saara?

Nessa hora vi ali, sob calor absurdamente escaldante, rostos suados, ares contritos, olhos em suspensão esperando pela catarse que vem a cada bola dividida na várzea. Assistindo àqueles garotos disputando ali seus sonhos mais simples e mais rotundos debaixo daquela pesada cortina de poeira, de terra seca castigada pelo sol do verão impiedoso, ficou simplesmente impossível não me emocionar.

Descobri naquele instante que amava aqueles homens inadvertidamente.

Se eu fosse um Allen Ginsberg faria dessa crônica um verso de “Uivo”, seu livro antológico. Como sou muito menos genial que ele, apenas me emociono. Me deixo levar por uma paixão intrínseca que me faz querer mais e mais e muito mais dessa sensação boa que o futebol de verdade, esporte autêntico, é capaz de despertar no mais incauto dos homens.

Meninos eu vi…

Vi as boas arrancadas do esperto meia Roni, do Corinthians de São Bernardo, bailando lindamente por entre zagueiros pérfidos, perdidos, pálidos e resolutos de seu destino de apenas serem coadjuvantes da obra de arte que foi o gol da vitória marcado pelo camisa 6. Eu vi…

Vi o técnico Reinaldo, do Estrela D, vociferando labaredas de fogo, flamejantes, ácidas como a guitarra de Alvin Lee, com a fúria santa de um Caravaggio… Contra todas as caneladas e bicos que seu time dava para o nada absoluto:

– Maciellllllll… Se você não colocar essa bola no chão e sair jogando eu te mato!!!

Eu vi a terra batida se formar em uma espessa nuvem marrom de poesia e encanto e de dentro dela emergir jogadores de futebol de uma decência, de uma retidão de caráter comovente. Diante disso tudo, pouco importa o placar da coisa toda. Quem vai querer saber daqui a 50 anos do resultado de um jogo de futebol, seja ele qual for? Não é isso que faz do futebol algo imortal. O que o torna diferente são as emoções.

Estas são de uma eternidade mais veemente que os decotes de Mae West.

Vão por mim…

MANIFESTO CONTRA AS EMOÇÕES SINTÉTICAS NA VÁRZEA

por Marcelo Mendez


Esse texto é uma afronta!

Soará como uma bifa na venta daqueles que entendem que o pragmatismo óbvio e ululante é a coisa mais importante do mundo. Uma enorme provocação aos cérebros cansados daqueles que imaginam que o mundo pode ser salvo a partir de falácias “liberaloides” e outras mentiras que nada mais fazem a não ser engessar o verbo.

Uma critica contumaz contra aqueles que imaginam que podem tudo contra a poesia.

Não podem!

Vivemos em tempos bicudos, onde a truculência tenta vencer o argumento, uma época onde para alguns, de nada vale o verso. Em detrimento disso querem metas, boletos e afins. Não. Não será assim.

Por essas linhas escorrerá toda indignação vinda daqueles que lutam para que se mantenham encantos ante a odes de repugnância. Um tratado de fé para quem só beija o rosto de quem dá mais valor para o beijo, do que cem mil réis.

Meu salve pra você, Wally Salomão!

Falemos então de futebol de várzea.

Na cidade de São Paulo do começo do século XX, onde tudo era muito pobre nas periferias e não havia nenhuma opção de lazer, os campos da várzea do Glicério surgiram no centro da cidade. Neles, se perpetuou o que pode haver de mais democrático na pratica esportiva. Pretos, brancos, pobres, japoneses, espanhóis, alemães, italianos, libaneses, turcos, todo mundo podia chegar com seu time, ocupar o espaço público e bater sua bolinha.

A coisa tomou uma proporção tão grande e tão contumaz que a partir daí se formou um estilo: O Futebol de Várzea.

Pelos campos de terra espalhados por todas as periferias da cidade, homens suados em suas camisas de pano grosso e suas chuteiras de pregos usavam a velha bola de capotão para criar as mais belas histórias de bola que se viu, ouviu e que não se viu principalmente. Era parte do encanto o bate papo sobre a pelota e ali se formaram milhões de cronistas.

Aí o mundo resolveu mudar. Nada contra isso, imaginem. A discussão aqui é outra, falamos da distopia que vem a partir dessa mudança e o que ela ocasiona em setores da sociedade. No caso do futebol de várzea, a coisa veio em uma de suas formas mais abjetas:


O campo de grama sintética. O nome por si só já é auto-explicativo; “sintético”

Agora, em um chão de borracha, forrado por uma grama de plástico verde, com linhas pintadas por tinta acrílica se inventou que o jogo de futebol deve acontecer sob o argumento de umas facilidades na pratica da coisa. E quem disse que o futebol de várzea está atrás dessas “facilidades”? A lógica da grama sintética é perversa.

No lugar dos arrabaldes do mundo onde se podia jogar bola com qualquer duas pedras fazendo as traves, temos quadras pagas com horários pré-definidos em um troço que se chama “Futebol Society”. Nome auto-explicativo de novo…

Eis que um gênio desses aí resolveu levar essa porcaria para a várzea. Então agora, tudo por lá passa a ser sintético. Os zagueiros não canelam mais seus atacantes, os chutes são de mentira, os suores são limpinhos, as chuteiras não têm mais travas e os jogos não têm graça. Um horror.

Em detrimento a isso, a crônica de hoje, muito mais que uma homenagem, será um manifesto em prol do que é verdadeiro, do que é a várzea em si. Contra toda a artificialidade de quem acha que pode estender um tapete de plástico em cima da poesia. Acho justo até que tentem.

Desde que o estendam longe do futebol de várzea…

A IMPORTÂNCIA DE NOVE MINUTOS NA VÁRZEA

texto: Marcelo Mendez | foto: Eduardo Lima


(Foto: Eduardo Lima)

Faltavam nove minutos para o fim…

Em dia em que o sol novamente ousou aparecer em meio ao inverno do ABCD, 22 homens suavam gotas de poesia pelas têmporas. No bico de suas chuteiras coloridas carregavam toda a dignidade de seus sonhos, de suas ambições mínimas, do réquiem para um instante de grandeza.

Era mais uma final de várzea…

No Estádio do Baetão, Corinthinhas de Alves Dias e Jurubeba definiam quem era o melhor time da cidade.

De um lado, uma máquina de jogar futebol, o Corinthinhas, com seus dois anos de invencibilidade, sua defesa intransponível, seu ataque avassalador e seu escrete de jogadores fortes e atléticos.

Do outro lado, havia então o Jurubeba. Time do Jardim Jussara e sua trajetória de lutas e conquistas múltiplas. Em cinco anos de atividades na liga da cidade, o rubro-negro tem quatro títulos de acesso, em quatro anos seguidos. No primeiro ano da divisão de elite, chegou à final do campeonato com todas as honras possíveis, imaginem que ousadia:

Não perdeu para o Corinthinhas! E mais, ousou a fazer gol em um empate de 1 a 1 contra os invencíveis!

Uau!

Tudo isso e muito mais me credenciavam a ter uma história rica para contar, como sempre acontece nas coisas do futebol de várzea. Nada no mundo da bola marrom, adornada por todo o terrão que se possa pensar, é, tão somente, comum.

Mas então, faltavam nove minutos para o fim…

Até aquela altura do campeonato as coisas eram lúdicas. O Jurubeba contara com duas falhas clamorosas de uma zaga inexpugnável para virar uma partida que havia saído perdendo. Com os gols de Binho e Da Lua, o caçula abusado vinha conseguindo uma proeza, uma façanha. Vencia por 2 a 1 toda a pompa de um time que sem dúvida é o melhor do ABCD

Mas ainda faltavam nove minutos…

Nesse minuto em que olhei para o relógio, uma bola se ofereceu limpinha para o lateral esquerdo Roque, do Corinthinhas e então, com a frieza quase que cruel que têm os grandes, os vencedores, mandou a pelota para o fundo das redes do goleiro do Jurubeba. Nesse momento tudo mudou.

A realidade, quando chega a um campo de terra, vem com a força de um milhão de centuriões em fúria. Dilacera paixões, frustra sonhos e vilipendia amores, apenas por charme do destino. Não, o Jurubeba não seria mais o campeão.

Como que por capricho também não perderia o jogo; seria vice-campeão com um empate em 2 a 2 pra reafirmar ainda mais a excelência do outro, que conquista assim o caneco por uma campanha que as Gentes do Jurubeba sabem, foi a melhor do certame.

Não fica o choro. O honrado time do Jardim Jussara sabe que seu vice campeonato é grande, dado a dureza em que foi conquistado. É merecedor de todas as odes do mundo da bola, por um bom tempo ousou vencer um time que é uma máquina e se não conseguiu perpetuar isso agora, decerto em breve o conseguirá. De lição ficam outras coisas, mas a principal, ressonará por muito tempo para o Jurubeba:

Cuidado!

Afinal, faltavam nove minutos…

O ZAGUEIRO BUFÃO E A GINGA DO MENINO VOODOO CHILD

por Marcelo Mendez


(Foto Ilustrativa: Check)

Sábado de futebol, inverno chegando em mim e eu, em doces lembranças que iam da luz que vem de um par de olhos azuis e uns sons de Jimi Hendrix, me vi na beira do campo do São Paulinho do Parque Novo Oratório em Santo André, vendo um daqueles jogos que nada mais vale, além apenas de ser lúdico.

Uma autêntica pelada de várzea, com times que se juntam em um sábado a tarde para nada além de bater uma bolinha, comer uma carne e beber uma cerveja. O jogo, portanto, era aquilo que o ludismo poderia propiciar. As favas com os fatos. Estão lá as caneladas, mas, o coração tem que se sobrepor ante o olho para efeitos poéticos.

Com essa premissa na cabeça, nada esperava. Eis que então a bola encontra o camisa 11 do time de vermelho. Sim, esqueçam essas groselhada de FIFAs, Federações e afins. Essa pelada era entre o time de vermelho e o time de branco e azul. O time de branco e azul tinha lá pelo lado do campo um zagueiro daqueles que só a várzea pode nos dar. Grisalho, meio duro de cintura, pançudo, caneleiro clássico a exibir as travas de sua chuteira ainda preta. Foi babando pra cima do menino camisa 11 de vermelho.

Nesse momento, com a ginga de um milhão de gafieiras, o menino camisa 11 de vermelho lhe aplicou muito mais que um drible. A bola que passou por entre as pernas do zagueiro bufão do time branco era uma privação de sentidos! Uma afirmação de fé! Uma afronta à razão!

Meus caros, aquilo não foi um drible; foi uma esculhambação!

Não contente o menino prosseguiu. Atrasou o passo, esperou o botinudo voltar e então lhe rabiscou em dribles coloridos de todas as formas possíveis e principalmente, inimagináveis. E como gran finale, parou a bola, olhou pra cara do sujeito e colocou a pelota para fora pela linha lateral, apontando pro cara e dizendo:

– Da onde veio esses dribles vai vir mais. Bate o lateral aí que você vai sair daqui zonzo…

Rapaz… O zagueiro do time branco então passou a vociferar pragas em cima do menino camisa 11 de vermelho que nem ligou. Saiu vitorioso da picardia e prometendo mais. Nesse momento, no meu ipod Jimi Hendrix tocava “Voodoo Child” com uma letra que dizia o seguinte:

– Uma Criança Vodoo que te rouba um doce, mas, devolve qualquer dia desses – perfeita definição:

O menino é um escândalo!

Dribla para satisfazer sua sanha hedonista, para lavar a alma do cronista ávido por arte, esculacha zagueiros para o deleite de fãs sazonais de sábado à tarde. Com ele o que mais importa é a brincadeira. É a chance que o moleque tem de ser grande. De subverter a ordem dos “sérios”, de mandar as favas os “Objetivos” e os “Planejamentos dos Pofexô” dos bancos de reserva. Aquele menino camisa 11 de vermelho é a chance do torcedor de “não estar nem aí”, de não ligar para a miséria da “busca pelos três pontos da tabela”, de deixar pra lá todo o resto das obviedades que infestam o dia a dia do nosso futebol. E mais:

Ele é nossa chance de fazer com que o as coisas se revolucionem por um viés muito mais maneiro e mais transado que as caretices que se apresentam por aí. Ele dribla, ele esculacha, ele sorri, ele tira onda, ele faz o zagueiro bufão cheio de ódio comer terra e babar. Ele joga por nós!

Em um dos dribles que aplicou no botinudo, eu sorri e ele viu. No outro, tomou uma pernada e riu de novo. Na seqüência, deu outra caneta e olhou para mim:

– Essa caneta foi para você, barbudo!

Com um sorriso, o agradeci! Era meu doce sendo devolvido…

 

 

A TRISTE MILONGA DO JUIZ FRACO NA VÁRZEA…

por Marcelo Mendez


(Foto: Reprodução do site Amigos da Várzea Fria)

Dos sábados pela manhã nada se espera de muito diferente das idiossincrasias que esse dia reserva para quem mora nos Bairros do ABCD, como no meu caso, no Parque Novo Oratório. Geralmente é assim, desde que existem os sábados pela manhã. Via de regra é isso, mas no último sábado vivi a exceção da coisa toda. Eu teria um jogo de várzea para fazer.

Pois é.

Da vez em questão não aconteceria clássica peleja dominical que rege a tradição do futebol varzeano. É assim desde sempre, desde que havia os campos espalhados pelas periferias que não existem mais, por sonhos que não se sonham, por poesias que não escritas, por músicas que não são mais tocadas, por paixões que não são mais vividas. Sendo assim, de acordo com o que não mais se tem, do que se nega, o fato de haver jogo na várzea sábado à tarde, afora de mudar minha rotina, nada de mais estranho provoca. Dessa forma lá fui eu.

Munido de caneta Bic, bloco de notas e alguns sambas assoviáveis e épicos, rumei para o Estádio do Nacional no meu Parque Novo Oratório para cobrir a rodada inicial do Torneio Uniligas, uma copa que reúne os campeões e vice das sete cidades do ABCD. Um campeonato que vem com toda pompa de uma competição recheada de patrocinadores, apoios, olhos atentos de todos e muitos interesses, até alguma ansiedade, ora veja.

A peleja se daria entre os times do Metalúrgico de São Caetano e o IV Centenário de Santo André. A expectativa era grande, afinal trata-se de times formados pelo que há de melhor no futebol amador da Região. Tinha camisas novas, bolas boas, técnicos atentos, focados, jogadores aflitos pelo tocar na bola. Tudo, portanto, estava pronto para que houvesse ali um daqueles jogos de muita pompa e grita. No entanto, apesar do dia ser outro, mesmo não havendo aquele romantismo de outrora, as coisas citadas são do Universo da Várzea e este, meus caros, é impar. Sendo assim, não demorou muito para que aparece-se um personagem que fizesse jus a esta tradição.

Dez minutos de jogo e então temos a primeira falta dura; Um carrinho dado com a voracidade de um solo de sax de Sonny Rollins, a riscar a perna do atacante. O árbitro, ali ao lado da jogada o que faz? Nada. Absolutamente nada. Avisado pelo auxiliar muito custa a apitar uma falta, mas não uma falta portentosa, digna de um zagueiro bufão, não; apitou uma faltinha, desconsiderando totalmente o clima do jogo, tal e qual um juiz de jogo de condomínio. O resultado foi péssimo.

A partir dali surge então o juiz fraco. Sim meus caros. O juiz fraco não coíbe nada, não grita, não se impõe, não ta nem aí para nada disso. Ele tem no semblante, toda a tragédia de uma obra Shakespeariana, tem toda a melancolia de um Huckleberry Finn, tem a tristeza dos amantes de amores frustrados.

 Não há nele a febre de uma paixão impossível, não existe em seus atos, o impulso que vira um jazz flamejante, um rock sanguíneo, nem a epifania do primeiro beijo na boca de uma adolescente virgem. Nada disso. Ele além de triste, nada mais que é um correto. Sim, vos afirmo:

O juiz fraco é um honesto! Nele não há o encanto de um juiz tendencioso, não há a poesia daquele clássico apito caseiro, nada disso. Erra porque é ruim. Falha porque apenas é fraco. Ouve gritos, xingamentos e palavrões diversos por obstinação, como ouviu o juiz de sábado. Ao término, após o 1 a 1 final me aproximei do moço. Vendo seu rosto melancólico, nada falei. Apenas lhe dei um abraço.

Sem entender muito, ele retribuiu me abraçando fortemente…